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June 26th, 2004
06:56 pm - Sanctity
Sentou-se à frente do espelho, esperando por uma revelação. O seu olhar perscrutou as rugas do rosto desfigurado pelo tempo.
Tudo deixou de ter importância ante a redescoberta entre espelho e rosto.
Esboçou um triste sorriso mas depois o sorriso tornou-se problemático. Quem era essa pessoa que o fitava?
Imagens sobrevoaram a sua mente vulnerável. Recordações dolorosas invadiam-no como uma torrente prenunciando catástrofe. Tentava negar essa invasão nas infinitas cavernas da sua mente!
Outra vez despertava nele a escuridão. Mas o espelho permanecia, era o instrumento da revelação.
Olhou para o seu rosto e viu, claramente, o grito atormentado da sua alma com profunda clareza. Incapaz de resistir, agarra no espelho e estilhaça-o com um terrível grito de morte.
Dois poços de sangue mancham a sua face esquelética. No seu cego desespero sujara as paredes amarelas de vermelho.
A primeira claridade da madrugada infiltrou-se por entre as grades da janela e inundou o quarto, iluminando o corpo do pobre louco de olhos arrancados. E do cadáver, emanou um arrepiante e intenso perfume de flores que subiu aos céus e foi cumprindo o seu caminho até atingir a indiferença dos céus.
Current Mood: hopeful Current Music: Blasted Mechanism - I believe
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June 21st, 2004
03:24 pm - Son of an Incubus

Merlin de Alan Lee
É assim que eu gosto de imaginar Merlin. Um bardo místico celta em profunda afinidade com as forças da Natureza. Impressionante.
Current Mood: drained Current Music: Morphine - The night
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June 19th, 2004
02:42 pm - O corvo
Extraído de Bichos de Miguel Torga
Naquela tarde, à hora em que o céu se mostrava mais duro e mais sinistro, Vicente abriu as asas negras e partiu. Quarenta dias eram já decorridos desde que, integrado na leva dos escolhidos, dera entrada na Arca. Mas desde o primeiro instante que todos viram que no seu espírito não havia paz. Calado e carrancudo, andava de cá para lá numa agitação contínua, como se aquele grande navio onde o Senhor guardara a vida fosse um ultraje à criação. Em semelhante balbúrdia - lobos e cordeiros irmanados no mesmo destino -, apenas a sua figura negra e seca se mantinha inconformada com o procedimento de Deus. Numa indignação silenciosa, perguntava:- a que propósito estavam os animais metidos na confusa questão da torre de Babel? Que tinham que ver os bichos com as fornicações dos homens, que o Criador queria punir? Justos ou injustos, os altos desígnios que determinavam aquele dilúvio batiam de encontro a um sentimento fundo, de irreprimível repulsa. E, quanto mais inexorável se mostrava a prepotência, mais crescia a revolta de Vicente.
Quarenta dias, porém, a carne fraca o prendeu ali. Nem mesmo ele poderia dizer como descera do Líbano para o cais de embarque e, depois, na Arca, por tanto tempo recebera das mãos servis de Noé a ração quotidiana. Mas pudera vencer-se. Conseguira, enfim, superar o instinto da própria conservação, e abrir as asas de encontro à imensidão terrível do mar.
(....)
Mas ainda no íntimo de todos aquele sabor de resgate, e já do alto, larga como um trovão, penetrante como um raio, terrível, a voz de Deus:
- Noé, onde está o meu servo Vicente?
Acordado do desmaio poltrão, trémulo e confuso, Noé tentou justificar-se.
- Senhor, o teu servo Vicente evadiu-se. A mim não me pesa a consciência de o ter ofendido, ou de lhe haver negado a ração devida. Ninguém o maltratou aqui. Foi a sua pura insubmissão que o levou... Mas perdoa-lhe, e perdoa-me também a mim... E salva-o, que, como tu mandaste, só o guardei a ele...
- Noé!...Noé!...
E a palavra de Deus, medonha, toou de novo pelo deserto infinito do firmamento. Depois, seguiu-se um silêncio mais terrível ainda. E, no vácuo em que tudo parecia mergulhado, ouvia-se, infantil, o choro desesperado do Patriarca, que tinha então seiscentos anos de idade.
Entretanto, suavemente, a Arca ia virando de rumo. E a seguir, como que guiada por um piloto encoberto, como que movida por uma força misteriosa, apressada e firme - ela que até ali vogara indecisa e morosa ao sabor das ondas -, dirigiu-se para o sítio onde quarenta dias antes eram os montes da Arménia.
Na consciência de todos a mesma angústia e a mesma interrogação. A que represálias recorreria agora o Senhor? Qual seria o fim daquela rebelião?
(...)
Noé e o resto dos animais assistiam mudos àquele duelo entre Vicente e Deus. E no espírito claro ou brumoso de cada um, este dilema, apenas: ou se salvava o pedestal que sustinha Vicente, e o Senhor preservava a grandeza do instante genesíaco - a total autonomia da criatura em relação ao criador -, ou, submerso o ponto de apoio, morria Vicente, e o seu aniquilamento invalidava essa hora suprema. A significação da vida ligara-se indissoluvelmente ao acto de insubordinação. Porque ninguém mais dentro da Arca se sentia vivo. Sangue, respiração, seiva de seiva, era aquele corvo negro, molhado da cabeça aos pés, que, calma e obstinadamente, pousado na derradeira possibilidade de sobrevivência natural, desafiava a omnipotência.
Três vezes uma onda alta, num arranco de fim, lambeu as garras do corvo, mas três vezes recuou. A cada vaga, o coração frágil da Arca, dependente do coração resoluto de Vicente, estremeceu de terror. A morte temia a morte.
Mas em breve se tornou evidente que o Senhor ia ceder. Que nada podia contra àquela vontade inabalável de ser livre.
Que, para salvar a sua própria obra, fechava, melancolicamente, as comportas do céu.
No fundo, este pequeno conto representa o mesmo que esta imagem:

Terá que ser sempre de extremos? Absoluta adoração de Deus ou irreconciliável separação do divino e humano?
Current Mood: frustrated Current Music: Within Temptation - the promise
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June 10th, 2004
11:07 am - Sunset Boulevard - Norma Desmond reaches the breaking point O meu último DVD: Sunset Boulevard de Billy Wilder. Creepy, creepy, creepy. Norma Desmond tem o ar de uma múmia bem conservada, constantemente relembrando os belos tempos em que ainda era a Nerfetiti da corte do faraó. Na verdade, é um cruel retrato dos meandros obscuros de Hollywood, da degradação e humilhação a que uma pessoa se pode sujeitar para alcançar os seus desejos. Loved it, tou com uma mood tão negra nas últimas semanas que o filme assentou que nem uma luva de veludo...
As minhas frases no messenger resumem-se a coisas feias e violentas. Espadas, breaking points... não liguem, é culpa dos exames.Exames esses que constituem o meu pecado,há um preço a pagar pelo desleixo e desmotivação do 2º ano da faculdade. Mea culpa! BUT I?M PAYING IT; DAMNIT!
Duvido sempre, duvido sempre, duvido sempre. Estou cansada de duvidar. Ignorance is indeed bliss. Não tenho fé. É por isso que escrevo histórias sobre falta de fé. No fundo, acabam sempre por ser sobre isso. Hei-de experimentar um dia escrever sobre como o meu patrão (no meu caso professor) é um sacana cabrão com estilo. E de como encontrei o amor da minha vida num bar qualquer. Não é sobre isso que escrevem as gajas da oficina do livro? E ainda por cima pagam-lhes por isso! Definitivamente, vou deixar de me dedicar ao fantástico.
Impossível! Estou enterrada no fantástico até à raiz dos cabelos.Já não posso fugir mais. Selei o meu destino. HAHAHAHA. MAis tarde, se saberá do que falo --> Something big, something revolutionary, something that will make me more tired than I already am.
Odeio esta época mas odeio acima de tudo o calor que me põe doente. Claro, heartofwinter... Current Mood: exhausted Current Music: Inertia Creeps - Massive attack
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May 30th, 2004
12:34 pm - Nausicaa

Nausicaa of the Valley of the winds
Tive a sorte de ver este anime da autoria de Hayao Miyazaki, o criador de Princess Mononoke e Spirited away (A viagem de Chihiro). Estreado em 1984, Nausicaa tornou-se a personagem de animação que mais conquistou a admiração dos japoneses até ser destronada por Nadia, the secret of the blue water.
Para quem já viu alguns dos filmes de Miyzaki não pode deixar de ficar maravilhado com as imagens visualmente apelativas, a construção de um enredo complexo e personagens de grande maturidade que atingem o auto-conhecimento.
Nausicaa of the valley of the wind aborda os temas fundamentais da obra de Miyazaki, a saber, o confronto entre o Homem e a Natureza, a incapacidade do Homem conviver em harmonia com o mundo natural. Comovente, inspirador, fantástico no sentido de que os elementos de fantasia transmitem as verdades univesais do ser humano, sendo esse um dos objectivos primordiais da literatura fantástica. Recomendo vivamente. Infelizmente, é uma animação rara e de difícil acesso em Portugal mas nada que umas compras na net não resolvam. Para os interessados em manga, Miyazaki também criou a manga de Nausicaa que já ultrapassou os 10 volumes.
E não exagero quando digo que Nausicaa conseguiu bater, a meu ver, Chihiro e Mononoke.
Current Mood: surprised Current Music: Nausicaa Requiem
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May 23rd, 2004
07:05 pm - My mood is made of infinite colours My mood tastes like bitter acid, my mood cries for a sunny day, my mood loves the furious sound of destiny waiting upon me, my mood sometimes lets me make great expectations, other times builds walls of denial and fear. My mood can be of such tenderness sometimes... It yearns for a sudden turn of events that make her no longer suffer. It desires a constant flight from this world. My mood is never resting for a moment. She demands constantly my attention. She screams at me to wake up and I say: What are you that keep telling me how to behave and how to act and what to feel? She never answers. She is deaf to my calling. I cannot control her nor I think it can be controled.
And yet I like her. It gives me also some bright moments, joy, exhilaration, a sense of calmness... I should learn to live with this permanent inconstancy. It is not wise to deny the restless nature of Man's mood. Current Mood: impossible to bear Current Music: Holding on to you - Terence Trent D'arby
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May 22nd, 2004
10:09 am - Surviving the age
Não faço ideia do que se passa no mundo. A última vez que ouvi falar dele, soube que não estava muito bem. Tinha acabado de entrar em mais uma das suas profundas crises. É caso para pensar se alguma vez ouvi boas notícias da parte dele. Os relatos que me chegam aos ouvidos vêem de pessoas (autodenominam-se de jornalistas) que, ultimamente, demonstram uma certa má-fé e uma tentativa brutal de impôrem as suas ideologias. AS SUAS, note-se. Se os jornalistas um dia acordem e decidem que não gostam do ministro tal ou da associação tal, podemos preparar o caixão. Será uma questão de tempo até à derrocada final. E o modo como o fazem é, no mínimo, insidioso. Fazem uso de uma apurada técnica de manipulação discursiva que torna senso-comum aquilo que jamais fora senso-comum. Pior do que uma ditadura em que existe uma plena consciência de falta de liberdade de expressão é viver numa democracia que só o é em nome, numa democracia que, subtilmente, perverte os códigos de conduta e nos obriga a fazer parte de um grande esquema onde o poder tem a última palavra.
Daí surge o leitor resistente. O leitor resistente será aquele que ganha consciência da manipulação a que está a ser sujeito e passa a a adquirir um olhar crítico sobre o mundo que o envolve. Interroga tudo, questiona tudo. Duvida do que lhe é contado em forma de factos e dogmas. Se lhe dizem que os jovens são extremistas, ele sabe que não é assim tão linear. Este leitor recusa as visões profundamente ideológicas que lhe tentam ser impostas.
Tal como Guy Montag, em Fahrenheit 451, o leitor resistente sabe que é vítima de uma tentativa de embrutecimento dos sentidos e de uma opressão e encarceramento extremamente subtis. Montag só o passou a saber quando começou a roubar e ler livros, proíbidos pelo Estado. A minha pergunta é: quando é que os leitores comuns ou não-leitores irão despertar como Montag despertou?
Current Mood: discontent
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May 21st, 2004
11:19 pm - To be Não sei definir o momento em que as coisas deram uma significativa volta, uma volta que ainda agora me deixa confusa e surpresa. Perplexidade pelo rumo inesperado que as coisas tomaram é o sentimento que me domina ultimamente. E no entanto, como é fácil adaptarmo-nos às situações, assustadoramente fácil. Não quero voltar ao passado. Não quero que tudo se mantenha constante. Talvez só no amor deseje essa constância. Quantos inícios somos capazes de aguentar numa vida?
Por estranho que pareça, até o meu nome mudou.E acho que até gosto da sensação de nova vida que isso me dá. Porque apesar de tudo, é mesmo um novo início. Um princípio marcado por responsabilidades precoces, por desafios que tenho a certeza que me ultrapassam, por situações que me magoam e só eu sei que me magoam.
The hour is late and the mood is indescribable... Current Mood: indescribable Current Music: Love is all around you
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